Texto|| Adeus Pai
Não estou arrependido mesmo olhando o corpo branco morto. O meu rumo era ser uma pessoa, uma matéria, sei lá, uma carne.
Todos me achavam feliz só porque eu colocava um sorriso de merda todos os dias no rosto e era por isso que eu era feliz! As pessoas diziam que na minha idade os problemas eram normais e tudo o que eu estava a passar era banal.
Todos me achavam feliz só porque eu colocava um sorriso de merda todos os dias no rosto e era por isso que eu era feliz! As pessoas diziam que na minha idade os problemas eram normais e tudo o que eu estava a passar era banal.
Acham que isto era tudo? Os meus professores tratavam-me como escárnio, um deles até chegou a chamar-me de merda, os meus colegas de turma chamavam-me gay, ou então era a bichona que em casa tinha imensos problemas. Na rua eu deitava os olhos ao chão para não ver a cara das pessoas que tinham nojo de mim, tentava ir o mais devagar possível para nunca mais chegar a casa, uma vez que me ia deparar com o nojento do meu pai a puxar a mão para bater na minha mãe.
Agora, tenho 16 anos e tenho sangue a enxurrar-me no corpo, tenho os meus olhos com lágrimas de raiva e nojo, a minha mãe agarra-me e grita, o meu pai, esse está morto de faca espetada no peito. Sim, fui eu. Matei-o. Tal como ele ia fazer com a minha mãe.
"Sente agora toda a dor que eu sentia todos os dias ao ver-te a bater na mulher que me trouxe ao mundo. Grita agora com ela! Chama-lhe puta e trata-a como tratavas a tua filha que se matou por lhe teres marcado com o cinto. Bate-lhe e chama-lhe de cadela e diz-lhe que ela só serve para cozinhar. Obriga-a a ter sexo agora! Fá-lo! Ah! Lembrei-me que agora não podes tu, não podes porque estás morto, estás com uma faca espetada no teu peito, estás com tanto sangue à tua volta, mas mesmo assim nunca vai ser tanto como a minha mãe deixou no seu "quase fim" que tu lhe estavas a deixar."
Foram as minhas palavras ao olhar para o homem que mesmo no seu fim disse à minha mãe que era a vaca mais sagrada na Índia.
Filho da puta! Nem o diabo vai desejar-te ter-te lá depois de teres tratado a tua mulher como trataste. Agora a última gota de sangue que te escorre pela barriga faz a minha mãe chorar. Sabes porquê? Porque mesmo depois de a tratares como lixo, ela, a minha mãe, amou-te dessa maneira pensando todos os dias que um dia ias cuidar dela como lhe prometeste no altar.
Coitada da enganada! Mesmo com toda a tragédia ela berra e chora diante o teu corpo que agora está repousado.
"Não o devias ter feito, além de tudo, de todo o mal, era o teu pai, o meu marido! Matas o homem que te traz à luz e nem uma palavra decente lhe dizes? Faz alguma coisa, não o deixes morrer de uma maneira tão repugnante e catastrófica, aproveita a sua última respiração, diz-lhe alguma coisa filho."
Ela tinha razão, tinha de lhe dizer alguma coisa, então aproveitando a sua última respiração, olhei-o nos olhos, tirei-lhe a faca e disse, "agora, estás perdoado."
Os seus olhos fecharam, a sua última respiração foi dada e agora vejo-o dentro de uma cama onde terá repouso eterno.
Adeus pai.
By- Bén e Cláudio

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